DIÁLOGO OU ESTRATÉGIA?
Tensões dialógicas na comunicação ESG e seus reflexos na gestão extrajudicial de conflitos
Resumo
A consolidação da agenda ESG (Environmental, Social and Governance) ampliou a importância atribuída à transparência, à participação dos stakeholders e ao diálogo como instrumentos de legitimidade organizacional. Nesse contexto, a comunicação corporativa passou a ocupar posição central na construção de consensos, na gestão de riscos reputacionais e na prevenção ou mitigação de conflitos empresariais e socioambientais. Entretanto, a crescente institucionalização de práticas participativas suscita uma questão relevante: a existência formal de espaços de diálogo é suficiente para assegurar processos comunicacionais legítimos? Partindo dessa problemática, o presente estudo analisa o denominado paradoxo dialógico, fenômeno caracterizado pela coexistência entre discursos organizacionais orientados à participação e práticas comunicacionais que preservam estruturas de controle, assimetrias de poder e limitações à influência efetiva dos públicos interessados. A pesquisa adota metodologia bibliográfica interdisciplinar, fundamentada em estudos sobre comunicação organizacional, stakeholder engagement, Communication Constitutes Organizations (CCO), dialogismo e comunicação sistematicamente distorcidos, com especial atenção às contribuições de Carnielli, Brennan, Merkl-Davies e Beelitz, Wylie e Ward, Vivian Smith, Florén e Marques Sobrinho. Os resultados indicam que a comunicação associada ao ESG pode oscilar entre modelos meramente informacionais, estratégias de resposta orientadas à obtenção de consenso e formas efetivamente dialógicas de construção compartilhada de significados. Demonstra-se que a participação dos interessados não se confunde com diálogo e que a legitimidade comunicativa depende de condições concretas de reciprocidade, transparência, contestabilidade e influência mútua. Conclui-se que a efetividade da comunicação ESG como instrumento de gestão extrajudicial de conflitos está diretamente relacionada à superação do paradoxo dialógico, permitindo que a comunicação deixe de funcionar como mecanismo de legitimação estratégica para atuar como espaço genuíno de construção coletiva de soluções.